Categoria: (Espaço Aberto) Por: Barban em 01-03-2010
É o segundo post do meu querido colega Flávio aqui na coluna ”Espaço Aberto”. O texto é ótimo! Confiram:
Estava eu cá feliz e entediado na minha casa, caminhando por ela, e eventualmente passei pela mesa da sala e lá estava o jornal do dia. Costumeiramente, eu leria as manchetes e deixaria o jornal (e a mim mesmo) em paz. Porém, o jornal estava especialmente colorido, o que me chamou atenção, em conjunto com a foto da Elaine Barbosa de Abreu e outra foto de um cara vestido de Morte, e a manchete dizia “Brasil enfrenta ‘apagão’ de mão de obra qualificada. Empresas deixam de preencher 1,6 milhão de vagas; há postos sobrando para engenheiros e farmacêuticos.” Opa – eu pensei – há uma brecha no mercado para engenheiros!
Eu li a matéria (!!!). Ela oferece uns dados e estatísticas interessantes, mas eu, como bom vestibulando, fiquei pensando “Por que diabos faltam engenheiros no mercado? Por que não faltam médicos?”. Uma coisa leva à outra, e aqui estou eu, reclamando do fato de que todo mundo quer prestar medicina (melhor pra mim, que quero engenharia. Nem sei por que eu to reclamando..). Assim, existem pessoas de exatas, de humanas e de biológicas. 3 opções, pra por de forma simples. Seguindo essa teoria, um terço da população vestibulanda pra cada área. Então por que raios (*cabrum*) o número de candidatos por vaga pra medicina chega a mais de 150, enquanto o de engenharia mecânica – a mais concorrida, se não me engano – ta só em 40?
“Porque tem várias engenharias” alguém poderia responder, mas todos sabemos que a verdade é que um volume enorme de pessoas quer medicina. E digo mais, no jornal tem uma listinha assim: “Profissões para as quais sobraram vagas em 2009. 1º Engenheiro civil. 2º Nutricionista. 3º Farmacêutico. 4º Enfermeiro. 5º Contador.” Pô! Tem trocentas vagas no mercado sobrando pra galera de biológicas! Mas não, todos tem que prestar medicina. Por quê? “Porque medicina dá dinheiro.” Isso não é motivo. Tem muito médico ganhando mal por aí. Há muitas formas de ganhar dinheiro, inclusive mais fáceis e rápidas do que se tornar um médico – meu pai sempre me disse que dono de cartório é uma delas.
Falando no meu pai (médico), uma vez eu perguntei pra ele “Pai, com tudo isso de gente fazendo medicina, o mercado de médicos não está saturado?” – “Não o de médicos bons”. Ou seja, esse monte de médico se forma em faculdades medíocres e é jogado no mercado. Não resolve nada. E tem mais: quem quer fazer medicina parece que esquece que só vai entrar no mercado daqui a (5 anos de curso, 3 de residência, não-sei-quantos de pós…) 10 anos, talvez? Isso porque pra fazer residência é um outro vestibular. Meu pai TAMBÉM diz (pô, é meu pai.. eu levo os conselhos dele a sério xD) que a prefeitura municipal de Ribeirão Preto paga pro médico um salário de dois mil reais. Pergunta pro cara que presta medicina se ele vai se contentar em viver com dois mil por mês. Sério, não sei por que esse povo se mata pra passar no vestibular pra uma carreira assim.
“Ah, mas o que controla o número de profissionais no mercado não é o número de gente que presta vestibular, mas sim o número de vagas na universidade.” Mentira. Assim, verdade. Mas o que controla o número de cursos e vagas disponíveis numa área para universidades é o número de pessoas que prestam vestibular nessa área.
Uma vez o professor do cursinho perguntou na sala “Quem aqui é de biológicas?”. Eu diria que 80% das pessoas na sala levantou a mão. Um absurdo, ao meu ver. Ainda assim, tem o fato de que minha amostra é meio viciada. Quem faz Sabin é pra medicina mesmo. É como se eu aparecesse no Poliedro e perguntasse quem quer engenharia.
Ah, sim. Isso tudo me leva a outro raciocínio. O que seria de nós se todos se formassem em Direito, Engenharia, Medicina, Economia, Administração e Marketing? O pessoal da engenharia de alimentos ia se tornar agricultor, os caras de Direito iam virar policiais, os economistas iam causar o caos e o pessoal do marketing ia fazer o resto do trabalho que não requer mão de obra qualificada. Imagina só? Sua empregada ia ser formada em Marketing! O que eu quero dizer é que o mundo precisa de pessoas que façam os trabalhos que não sejam os mais admiráveis. Precisamos de mecânicos, encanadores, pintores, cabeleireiros, cozinheiros… “Ah, sim, precisamos. Mas não sou eu que vou fazer isso.” Pois é. Todos pensamos assim. Ou vai me dizer que você cresceu querendo ser faxineiro? (lixeiro não conta; lixeiro fica pendurado no caminhão pra lá e pra cá, deve ser até divertido).
Conclusão: Pelo jeito, o mercado não se regula. Crítica ao liberalismo. Descobriram o Pré-Sal agora a pouco, mas cadê as pessoas querendo prestar engenharia do petróleo? O pessoal quando vai prestar vestibular esquece de pensar no mercado.
Flávio Malerba
*O conteudo expresso nesta coluna, bem como os dados ou fatos mencionados na mesma são de total responsabilidade de seu(s) autor(es).
É pessoal.. o blog não morreu não. Aguardem por novidades…
Barban






